SCP-4005

Informações

SCP-4005, pouco antes de sua contenção. Fotografia encontrada entre os pertences de um habitante do Cairo, Ziyad Abdullah, que desapareceu sem deixar rastros na década de 1970.

Autor: Imperiex
Avaliação: 1/1
Criado em: Tue Jan 06 2026

Seu al-Sin celestial, seu Marrakech distorcido, é real. É perfeito. É possível. Tudo o que é necessário é fé e o esforço de nossos pés tortuosos.

Item nº: SCP-4005
Classe do Objeto: Seguro Apollyon

Procedimentos Especiais de Contenção

A contenção de SCP-4005 não é mais possível.

Descrição

SCP-4005 refere-se à uma lâmpada de mesquita indestrutível, recuperada no Cairo, Egito. Com base em relatos de diversos escritores ao longo do dos séculos, acredita-se que a lâmpada tenha sido criada em Marrakech, no século XIV, passando pela África e Ásia ao longo de séculos antes de ser levada para o Cairo em 1950.

Quando um indivíduo fixa o olhar em SCP-4005 por vários segundos, enquanto aceso, o mesmo verá imagens de cenas urbanas dentro do fogo. Essas imagens possuem um efeito de Risco Cognitivo1, fazendo o espectador se tornar uma instância SCP-4005-1.

Instâncias SCP-4005-1 são caracterizadas por um impulso de peregrinação à cidade vista dentro do fogo de SCP-4005. Isso envolve viajar uma grande distância a pé, geralmente pra outro continente, e entrar em um portal específico; na maioria das vezes sendo uma porta, a entrada de uma caverna ou uma janela. O local para onde a peregrinação é feita quase sempre possuí alguma importância pessoal ou espiritual para instâncias SCP-4005-1. Após entrarem nesses portais, instâncias SCP-4005-1 irão desaparecer.

Quando entrevistados por membros da Fundação, instâncias SCP-4005-1 invariavelmente acreditam que serão levados à cidade vista em SCP-4005 ao final de sua peregrinação. Os mesmos afirmam que todas as cenas urbanas são da mesma cidade, supostamente localizada em algum lugar da China ou abrangendo toda a China. Essas cenas apresentam grande variedade e, embora nenhuma corresponda a qualquer local conhecido, frequentemente exibem grande semelhança com cidades do mundo real. A proeminência dessa cidade nas narrativas de instâncias SCP-4005-1 e a possibilidade de sua existência baseada em características comuns encontradas nelas levaram à sua designação provisória como SCP-4005-2.

SCP-4005 foi descoberto em 1975, quando foi retirado de um depósito em uma mesquita do Cairo e aceso durante uma congregação lotada, resultando em centenas de fiéis convertidos em instâncias SCP-4005-1. O movimento em massa de pessoas resultante foi notificado pela Fundação, que conteve SCP-4005 e deteve centenas de instâncias SCP-4005-1 após uma investigação completa.

Adendo 1 09/09/2027

O texto a seguir é um diário escrito por Omar Ibn Rashid, um romancista Egípcio ativo nos anos de 1950. Ibnh Rashid desapareceu em 1958, aproximadamente três anos após a escrita deste diário. Todo o diário foi composto por uma série de códigos intrincados e complexos, e ainda não foi totalmente traduzido. As páginas seguintes são traduções do que foi decodificado até o momento.

O passado é uma mentira. É meramente uma série de narrativas intrincadas, contadas por pessoas desesperadas para dar sentido ao absurdo, todas escondendo alguma transgressão aberrante no âmago do caos.

Eu poderia dar a você uma narrativa do meu próprio passado, mas seria a mesma mentira dita. Um garoto, criado em uma situação próxima à pobreza, mas não exatamente nela, compreendendo-se em meio a uma cacofonia de ortodoxias conflitantes. Uma criança primitiva de um povo ainda em formação. Um menino piedoso, submisso a Deus. Um futuro sujeito do nacionalismo, libertando-se das correntes do passado. Um peão na máquina incessante do capital.

O homem que me transformei também estava dividido entre esses movimentos, momentos, discussões acaloradas, e, como muitos jovens, fui atraído por todos eles. O pan-arabismo de Nasser me intrigava, mas quando vi seu sorriso de vendedor enquanto o Cairo se transformava em uma favela, fiquei desiludido. A piedade da Irmandade Muçulmana parecia ser um antídoto, mas logo percebi que era um híbrido distorcido do moderno e do pré-moderno. Comunistas e nacionalistas estavam apenas brincando com seus alicerces iluministas em diferentes combinações, pirâmides de pedra antiga ou trabalho alienado. Eu me sentia perdido.

Somente nas zawiyas dos Sufis encontrei um significado. As pessoas de lá podiam, às vezes, ser tão dogmáticas e de mente tão fechada quanto as demais. Mas quando refletiam, meditavam e se entregavam à união com Deus, eu conseguia vislumbrar algo maior. Na época, eu não compreendia o que era.

E então, vaguei. Meus livros e poemas nunca foram populares. Numa heterodoxia de ortodoxias, ninguém se importava com alguém que não oferecia soluções, apenas mais perguntas. Mas me rendiam uma pequena e magra quantia, o suficiente para me alimentar e me vestir. E para satisfazer minha curiosidade pela história de lugares remotos e curiosidades peculiares. E foi assim que encontrei a lâmpada de Aladim.

Estava ficando escuro, e as nuvens negras contrastavam com o céu azul. Lá fora, no deserto, a areia se movia e se deslocava, formando padrões estranhos no crepúsculo. Eu estava viajando pela União Soviética, em Samarcanda, fazendo pesquisas para o meu próximo livro. Seria um romance histórico, ambientado no Registan de Timur. Seria a minha obra-prima.

Mas, confinado num apartamento no alto de um prédio no Cairo, eu havia perdido a inspiração. Minha confortável existência de classe média não me preparava para contar uma história sobre cãs e sultões, impérios e guerras. Então, resolvi viajar, e foi o que fiz. Stalin estava morto, Khrushchev estava liberalizando as reformas, e eu tinha dinheiro suficiente. Não era como se eu tivesse algo melhor para fazer além de fumar e discutir com sufistas.

Samarcanda era exatamente o que eu precisava. As palavras simplesmente se encaixaram. Eu me sentia inspirado, feliz, livre. A cidade estava sendo destruída pela monotonia soviética, mas eu sabia, eu sabia, que em suas ruas, em seus ziguezagues complexos e utopias já em ruínas, havia algum vestígio do passado. Eu escrevi e escrevi, mas uma coisa me incomodava: a conclusão.

Timur jaz moribundo na estrada para Kashgar. Seu desejo de possuir o mundo foi esmagado. Sua mente, ao mesmo tempo tão brilhante e tão frágil, é incapaz de perceber o que lhe acontece. Mas onde termina sua história? Em uma versão, eu o convidei ao esquecimento; uma lembrança apropriada de sua fragilidade física e humana. Mas isso não era satisfatório; reduzia o invisível a meros fatos atômicos, removendo toda a história, os conceitos e a interação de diferentes ideias. Então, eu o convidei ao julgamento, perante Deus e as hostes de anjos. Mas isso simplificou demais a história, definindo sua destruição em um eixo antiquado de certo e errado. Contemplei-os por dias, sem saber qual escolher. O que eu precisava era da resposta.

E encontrei-a numa adega. Estava hospedado na casa de um velho amigo, um antiquário quirguiz de Osh, que queria me mostrar suas aquisições mais recentes. Ele era um sujeito peculiar. Numa época em que a história do país lhes era transmitida pelos seus mestres russos, ele lutava para preservar qualquer vestígio de uma ordem diferente, criando sua própria coleção a partir de fragmentos dispersos de uma concepção de vida distinta. Ele me mostrou maravilhas: manuscritos de al-Kashgari e Khayyam, miniaturas ilcânidas, trabalhos em metal com intrincados padrões uzbeques e timúridas.

Ele foi jantar, mas eu fiquei sentado, examinando tudo. E então vi a lâmpada. Era um objeto empoeirado e sem graça. Quase não lhe dei atenção, mas então fui tomado por um pensamento estranho e romântico. Eu queria ver aquela coisa antiga acesa novamente. Transformá-la de um mero objeto de arte, algo valorizado apenas por sua forma e significado, em uma ferramenta genuína e viva, com propósito. Encontrei o óleo do meu anfitrião, derramei-o na lâmpada e a acendi. Fiquei olhando para ela.

E eu vi coisas.

Vi torres de luz sedosa, rocando as nuvens e brilhando como joias. Vi bazares de cúpulas cobertas, em tons de cinza e azul mais profundos e belos do que qualquer coisa na Pérsia. Vi o contorno de vielas sinuosas de arenito, de pagodes vermelhos tremulando na brisa. Vi mesquitas azuis em perfeita harmonia com praças de areia e cidades antigas. Vi uma cidade, gerações e gerações de uma cidade, um catálogo da história.

Compreendi imediatamente. Aquela era a China, a verdadeira China. Aquela construída com matéria bruta era apenas uma miragem, uma sombra. Esta cidade era o império no fim da estrada, além dos Portões de Ferro de Karasahr e dos pântanos de Bengala. Eu sabia que precisava ver, agarrar, tocar aquela coisa. Fiz as malas, despedi-me do meu anfitrião perplexo, contrabandeei a lâmpada e parti a pé. Para o sul.

Porque a entrada para al-Sin não fica no leste, como os antigos sábios queriam que você acreditasse, mas sim no sul. Eu sabia instintivamente que, em um corredor de Marrakech, existe um arco que marca a fronteira do Uiguristão. Sei que isso é verdade. É por isso que estou sentado em uma casbá no deserto, em uma noite fria , escrevendo estas palavras enquanto o vento açoita minhas vestes.

Quando testemunhamos um milagre, raramente percebemos como tal. Podemos ser surpreendidos por algum clarão, um lampejo, algum movimento estranho. Pensaremos que é um truque, criaremos uma narrativa e o incorporaremos à nossa concepção dos acontecimentos. Nosso passado é uma história de mentiras desse tipo; milagres do homem explicados pelo recurso a Deus, e milagres de Deus explicados pelos medos do homem. Nosso passado é composto por muitos passados, misturas confusas para nos ajudar a dormir, em constante conflito uns com os outros. Uma cacofonia de falsas utopias. Mas por trás de todas elas, distante e nebuloso, existe um passado verdadeiro. E esse passado foi incorporado a uma lâmpada de vidro.

Data: 06/01/28

Entrevistadora: Dra. Martha Hardcastle, Líder do Projeto SCP-4005.

Entrevistada: SCP-4005-1A, anteriormente Dra. Fatima Mahmoud, pesquisadora de Nível 3 no Sítio-867.

Localização: Sítio-867, Instalação de Contenção 8B.

<Início do Registro>

Dra. Hardcastle: Olá, SCP-4005-1A.

SCP-4005-1A: Eu devia ter imaginado que você se afastaria de mim rapidamente, Martha.

Dra. Hardcastle: Suas acomodações lhe agradam?

SCP-4005-1A: Estão, muito obrigado. Não são tão boas quanto as salas dos funcionários, mas quebram o galho.

Dra. Hardcastle: Quais foram os motivos de suas ações no dia 17?

SCP-4005-1A: … Lamento, Martha. Mas eu precisava saber

Dra. Hardcastle: Saber? Saber o quê?

SCP-4005-1A: Sempre achei que as verificações de antecedentes da Fundação estivessem ficando muito mais brandas.

Dra. Hardcastle: O-oh. Oh. Mahmoud.

SCP-4005-1A: Aisha Mahmoud e Rashid Mahmoud. Ambos desapareceram no mesmo dia, em 1975, juntamente com toda a congregação da mesquita. Eu estava em casa, doente, com minha tia. Foi muito difícil encontrar muitos dos meus documentos antigos, e Mahmoud é um sobrenome comum. As coisas eram mais complicadas nas favelas pobres do Cairo.

Dra. Hardcastle: E daí? Você queria saber como era a sensação?

SCP-4005-1A: No começo não. Passei anos procurando por eles, em todos os lugares que pude. Desenvolvi um interesse precoce pelo inexplicável, por desaparecimentos misteriosos, e eu era bom no que fazia, então… quando a Fundação me ofereceu um emprego, agarrei a oportunidade. Levei alguns anos para encontrar meus pais no banco de dados.

Dra. Hardcastle: Eu… olha, por mais que valha, sinto muito, Fátima. Eles já estavam doentes quando…

SCP-4005-1A: Tudo bem. Já faz muito tempo. Enfim, fui transferida para cá. Não foi planejado, eu só… só queria saber o que tinha acontecido. O que realmente tinha acontecido. Eu sei que a Fundação faz coisas assim… quer dizer, eu já fiz coisas assim. Eu… precisava de um desfecho, eu acho.

Dra. Hardcastle: Bem. Enfim. Isso ainda não explica o que você fez na noite passada.

SCP-4005-1A: Pra ser bem honesta, eu não tenho me sentindo muito bem ultimamente. Você sabe do incidente de alguns meses atrás, com o trem, e… bem, eu também tenho pensado neles. Nos meus pais, quero dizer. Li os arquivos, as entrevistas deles. O desespero deles para sair, para viajar. Não te culpo, mas eu só… eu queria saber como era, saber o que eles passaram.

Dra. Hardcastle: Se tivéssemos psicólogos aqui, eu poderia ter organizado um…

SCP-4005-1A: As pessoas nem sempre são lógicas, Martha.

Dra. Hardcastle: Certo. Certo, eu sei. Bem… O que você viu lá dentro?

SCP-4005-1A: Eu acendi, olhei fixamente e… eu vi. A cidade. Uma cidade interiorana, uma cidade exterior. Uma cidade construída em torno de uma praça central, como as colônias antigas; mas todas as praças centrais marcando diferentes centros. Igrejas, templos, mesquitas. Canais, pontes que ligam arranha-céus. Avenidas de pecado decadente, convergindo umas nas outras em uma cascata como Kowloon. É um lugar onde as memórias dos milhares que contemplaram sua luz se entrecruzam pela eternidade.

Vi ruas de casas geminadas londrinas, muito belas e vastas, em bulevares retos e sinuosos, todas misturadas. Vi prismas empoeirados como casas turcas, seu passado e presente fundidos. Vi cidades coloniais idealizadas por antigos americanos, com vapor sobre casas de madeira e carroças sacolejantes percorrendo as ruas. Vi blocos de concreto emergindo das profundezas. Não sei como descrever, Martha. Era… era pura criação. As memórias, as histórias de mil povos, todas misturadas.

Dra. Hardcastle: Você viu tudo? Como é visto de fora?

SCP-4005-1A: Não dá para ver dessa forma. É… é tantas coisas ao mesmo tempo. Uma cidade interiorana, uma cidade exterior. Uma cidade construída em torno de uma praça central, como as colônias antigas; mas todas as praças centrais marcando diferentes centros. Igrejas, templos, mesquitas. Canais, pontes que ligam arranha-céus. Avenidas de pecado decadente, convergindo umas nas outras em uma cascata como Kowloon. É um lugar onde as memórias dos milhares que contemplaram sua luz se entrecruzam pela eternidade.

Dra. Hardcastle: Você sempre teve um estilo rebuscado em sua prosa.

SCP-4005-1A: Exige uma prosa rebuscada. É avassalador.

Dra. Hardcastle: Este lugar não existe. É uma fantasia. Não faz sentido

SCP-4005-1A: Faz sentido. Faz todo o sentido, Martha. Eles me encararam, do alto de um portão de ferro. Plantaram a imagem na minha cabeça- plantaram a cidade na minha cabeça. Os habitantes. Os outrora humanos, agora criaturas que se constroem e se desfazem incansavelmente.

Dra. Hardcastle: É algo que já ouvimos antes. Muitas pessoas afirmam ter algum tipo de ligação viva com este lugar, que o carregam consigo nas imagens que viram. Que a cidade manteve uma presença dentro de suas mentes. Nunca achei isso muito significativo, no entanto…

SCP-4005-1A: Eu sei, Martha, eu estudei as mesmas pessoas que você, mas… só agora eu entendi. Quando você atravessa, você… muda. Você perde partes de si mesma, ou elas se transformam em outra coisa. Os habitantes deste lugar… eles vivem como se estivessem em um sonho constante, e compartilharam esse sonho conosco. Um único sonho unificado e compartilhado, um fio percorrendo nossos cérebros… ah, eu não consigo descrever. Me desculpe, Martha, eu sei que você quer mais.

Dra. Hardcastle: Sonhos, sim, um sonho compartilhado, algo em que não tínhamos pensado… mas tudo isso é um disparate. Tudo mentira! Fátima não existe. Disso tenho plena certeza.

SCP-4005-1A: Eu… Eu sei que parece improvável, mas…

Dra. Hardcastle: Se é um sonho, é um sonho do inatingível. Talvez essa seja a piada. Você não entende, Fátima? Você atravessa a porta para a utopia e desaparece. Utopia. É só a cidade de More, eu-topos, lugar-nenhum. Não pode existir. Não poderia. A natureza humana, a expiração do corpo, os mil choques naturais e toda essa baboseira… tanta coisa nega isso.

SCP-4005-1A: Prefiro acreditar no contrário.

Dra. Hardcastle: E, infelizmente, não posso impedi-la de fazer isso. Sinto muito, Fátima. De verdade.

SCP-4005-1A: Tudo bem.

Dra. Hardcastle: Só mais uma coisa. Por que você não tentou escapar? Nossos outros indivíduos passaram a maior parte do tempo em confinamento desesperados para sair, para completar essa sua peregrinação. Por que você não foi?

SCP-4005-1A: Ah, mas eu já fiz isso, Martha. Peregrinações não precisam ser jornadas a pé. A minha é completamente diferente.

Dra. Hardcastle: … Não vai me dizer mais nada?

SCP-4005-1A: Você descobrirá em breve, Martha. Sinto muito por ter causado todos esses problemas. De verdade.

Adendo 3 23/01/28

Segue abaixo um registro de testes selecionado de funcionários de Classe D expostos ao SCP-4005.

Adendo 4 31/05/28

Em 30/05/28, vários membros do Sítio-867 transformaram-se espontaneamente em instâncias SCP-4005-1. O efeito pareceu afetar espontaneamente os membros do Sítio-867 de forma aleatória; após algumas horas, aproximadamente 20% da equipe do Sítio-867 havia sido convertida em instâncias de SCP-4005-1.

Segue abaixo uma entrevista conduzida pela líder do projeto, Martha Hardcastle, com SCP-4005-1A a respeito dessas alterações no funcionamento de SCP-4005.

Data: 30/01/28

Entrevistadora: Dr. Martha Hardcastle, Líder do Projeto SCP-4005

Entrevistada: SCP-4005-1A, anteriormente Dra. Fatima Mahmoud, pesquisadora de Nível 3 no Sítio-867.

Localização: Sítio-867, Instalação de Contenção 8B.

<Início do Registro>

Dra. Hardcastle: Muito bem, Fátima, que diabos.

SCP-4005-1A: Ei, Martha.

Dra. Hardcastle: Não… cale a boca e me diga o que diabos está acontecendo. Não sei mais em quem posso confiar, mas você foi minha amiga por muito, muito tempo. Eu quero…

SCP-4005-1A: Eu… Eu realmente sinto muito. Eu sei que deve ser difícil. Mas você verá, é tudo para o bem maior…

Dra. Hardcastle: D-droga!!

Dra. Hardcastle senta-se e respira pesadamente por alguns segundos.

Dra. Hardcastle: O sítio inteiro está em confinamento. Metade da equipe foi encurralada em celas de contenção por tentar escapar. Eles não param de gritar que vão fazer uma peregrinação. E mais alguns conseguiram fugir para a floresta. Como eu impeço isso, Fátima?

SCP-4005-1A: Eu… eu não… não foi minha decisão, Martha.

Dra. Hardcastle: Então de quem é? Meu trabalho é conter. É nisso que sou boa. Então me diga o que devo colocar nessa maldita caixa, Fátima. Por favor.

SCP-4005-1A: Você não pode. Já começou. Sinto muito, Martha, mas já acabou.

Dra. Hardcastle: O quê??

SCP-4005-1A: A grande peregrinação. Em todo o mundo, pessoa após pessoa, sabendo como perseverar. Chegando à cidade. Chegando ao reino justo.

Dra. Hardcastle: As pessoas morrem nessa cidade. Você mesmo me disse isso.

SCP-4005-1A: Mas suas criações não. A criação deles perdura ali por uma eternidade. Caindo em ruínas e ressurgindo, apenas para ver como fica em cores diferentes. É uma dádiva. Lá, podemos ser felizes, livres, capazes de direcionar nossas necessidades e desejos para outras coisas, porque a cidade nos elevou. Não precisamos mais ter medo. É uma dádiva.

Dra. Hardcastle: Você continua dizendo isso, Fátima, toda vez que eu entro aqui, mas existem mil lugares que prometem a mesma coisa. Alagadda, a Fronteira Tangencial, o Rei Sussurro e seu Exército de Pesadelos. Tudo o que eu vejo são crianças se olhando no espelho e se jogando nas rochas, na esperança de que houvesse água embaixo. Mergulhando no esquecimento. Na boca da maldita da enguia . Pelo menos a sua morte é mais bonita, eu admito.

SCP-4005-1A: Não fale disso dessa maneira.

Há uma pausa de vários segundos.

Dra. Hardcastle: Ah, só… me dê alguma coisa, Fátima, alguma coisa.

SCP-4005-1A: Não posso. Sinto muito. Mesmo se eu quisesse, e não posso, não há nada que eu possa fazer. A cidade foi construída por pessoas, apenas pessoas, e agora ela as está chamando. Chegou a hora, a hora de o mundo mudar, a hora de toda essa estrutura ser descartada. Imagine não ter que se preocupar, todos os dias, com quem você é. Com o que você é. Imagine estar em um lugar onde tudo faz sentido. Onde não precisamos desperdiçar nossas vidas nessa luta.

Dra. Hardcastle: É a luta que nos permite criar.

SCP-4005-1A: Será? Gênios torturados são tão inteligentes porque são torturados, ou são gênios apesar da tortura? Ninguém nunca pergunta isso, não é? Nenhum de vocês jamais se perguntou se talvez, só talvez, os gênios sejam feitos para sofrer pelas pessoas, e se víssemos muito mais deles se pessoas como nós não os trancassem em gaiolas, se não fizessem com que as pessoas só pudessem expressar beleza através da dor. Podemos criar o reino justo, Martha.

Dra. Hardcastle: Isso não existe.

SCP-4005-1A: Existe sim. Existe, com certeza. Vamos recuperar este mundo, Martha. Vamos criar justiça. Vamos dar às pessoas o que elas merecem: uma chance real. Um mundo que realmente lhes pertence para moldarem e que não lhes será arrancado. A humanidade não fede, mas tem muitos problemas. Vamos eliminar a necessidade do vício. Vamos impedir que queiram ser maus. Faremos isso com bondade.

Dra. Hardcastle: Você parece uma ativista estudantil. Não sabe que todos esses sonhos estão fadados ao fracasso? Sou mais velho que você, Fátima. Vi o mundo queimar, tremer e desmoronar. Todos os meus sonhos viraram pó, e os seus também virarão. Ou virarão.

SCP-4005-1A: Você está tão cínica. Só porque você falhou não significa que eu também falharei. Estamos criando um mundo onde as pessoas podem ser pessoas. Onde todos podemos ser livres, todos podemos criar, todos podemos nos libertar do fardo esmagador de suas correntes!

Dra. Hardcastle: Ah, ouça só! Já vi milhares de pessoas como você. Em cima de barricadas, gritando o que querem. Se este mundo realmente foi criado por nós, será tão ruim quanto tudo o que já existiu. Será destruído, suas criações espalhadas! Não acredito em você. Como você sabe que esta lâmpada realmente está lhe mostrando uma cidade, hein? Como você sabe que não é apenas algum deus antigo, atraindo você com promessas e mentiras para consumi-la, aprisioná-la e escravizá-la?

SCP-4005-1A: Eu não sei. Mas confio o suficiente para tentar. Qual é o sentido, Martha? Qual é o sentido dessa rotina interminável, dessa normalidade que a Fundação está tão desesperada para proteger? Por que não tentar mudar o mundo? Por que não ter um pouco de caos? Porque você tem tanto medo de se tornar outra Manna que não consegue conceber uma existência melhor. A Fundação tinha tudo. Vamos pegar isso e devolver a eles o presente de uma vida melhor. Quer saber o que está acontecendo? Eu vou te contar. Al-Sin se tornou um mito novamente. Por meio de indícios de sombras, pelo boca a boca, por qualquer reconhecimento, ele se espalhará como um vírus. Existe um mundo melhor lá fora, Martha! No reino no fim da estrada. Na justiça no fim de todas as ilhas.

Dra. Hardcastle: …Esta entrevista terminou. Contenha-a.

Adendo 5 02/06/28

Segue abaixo outro conjunto de entradas decodificadas do diário de Omar ibn Rashid.

O presente é uma mentira. É uma série de momentos que tentamos dar um contexto, mas o contexto está sendo apagado e reescrito ao redor, deixando apenas a confusão da multidão.

Até então, eu nunca havia dado muita importância às peregrinações. A religião do meu país sempre teve uma única e grandiosa, a Hajj anual; santuários dedicados a sufis e outros homens santos estão espalhados por todo o país, para onde ocorrem pessoas. Talvez esse número diminua a cada ano, mas ainda exerce influência. Contudo, eu, burguês e moderno como sou, nunca dei muita importância a elas. Parecem-me uma busca fútil para aqueles determinados a ostentar sua piedade de maneiras sociais e convencionais.

Sei melhor agora. A dor, a fome, a febre de uma peregrinação não estão ali por vaidade ou por um ascetismo autoflagelante e irracional. Estão ali como parte de uma jornada, uma jornada que te muda. Que te torna melhor. Andei pelo mundo inteiro, um passo em frente ao outro. Foi difícil, às vezes, mas lentamente se tornou uma rotina e, depois, prazeroso. Havia algo real nisso, algo tão humano. Implorei, vendi e negociei meu caminho pela Pérsia, Síria, até a África e, finalmente, até a cidade da minha juventude.

Foi ali onde deixei a lâmpada. Eu tinha, em momentos de desespero, eu a havia enchido de óleo e a acendido, para contemplar novamente o desejo do meu coração. Eu via as ruas e as casas, os palácios. Eu vi reis que existiam não como pessoas, mas como figurantes. E eu vi um homem velho, rindo como uma criança nova enquanto vagava pelas intermináveis ruas da China.

Imagine que estamos no século XIV, em anos Cristãos; no oitavo nos nossos. Não pense nisso como uma viagem no tempo, ou como uma reflexão sobre o passado; pense nisso como um presente que já foi e que pode voltar a ser. Para as pessoas dessa época, nosso passado recente é o futuro delas. Elas também têm uma noção de tempo completamente diferente, para a qual os eventos em nossos passados aconteceram de forma diferente e podem assumir significados muito distintos. Este é o presente; apenas o presente em outro contexto. Outros tempos nunca morrem de verdade, eles são simplesmente trancados onde jamais poderemos vê-los.

Há um emir, vivendo em uma cidadela em Marrakech. Outrora, esta cidade foi a sede dos Almorávidas e dos Almóadas, mas estes já não existem. Está rodeada por muralhas ocres, que lhe conferem a alcunha de Cidade Vermelha. É bela sob o sol de verão, mas a sua beleza é a beleza do passado. Claro que sabemos que a cidade voltaria a atingir grande esplendor sob o domínio dos Saadis, mas este emir desconhece isso. Para ele, governa simplesmente uma cidade velha e decadente, enquanto a sede dos Merínidas em Fez se cobre de glória.

À noite, ele teve pesadelos. Sentado na cidadela, ele se revira na cama. Ele ama sua cidade. Ama suas muralhas, suas madraças, sua cidadela. Ama seus espaços verdes, casas com pátio interno, artesanato colorido. As muralhas sobre muralhas sobre muralhas, serpenteando de maneiras incompreensíveis para alguns, mas fazendo todo o sentido para seus habitantes, seus bairros (mahalle) e ruas familiares alinhadas em uma ordem de máxima segurança.

Sua cidade está morrendo. Ele soluça, enquanto os pesadelos da sua queda o assombram, com exércitos de berberes, malianos ou francos invadindo o Magreb sem sequer parar para saquear. Ele quer uma resposta, uma solução. Ele quer que sua cidade dure para sempre.

Certo dia, um viajante veio. Ele vem do Reino de al-Sin, muito distante, até mesmo nos confins do dar al-Islam). Ele sabe que a China é a origem de todas as coisas belas. Certa vez, em uma campanha militar, mostraram-lhe uma miniatura da obra de Rashid al-Din, o vizir mongol que morreu quando ele era criança. As miniaturas tinham rostos como a lua e cores que se entrelaçavam. Ele vira o trabalho deles, que se espalhava pela Pax Mongolica e chegava aos bazares do Marrocos.

O viajante lhe conta histórias semelhantes. Ele o conta sobre Kublai Khan, uma de suas nações subservientes a ele, do palácio de Khan-baliq e do vasto mercado de Khanfu. Pagodes vermelhos que reluziam à luz. Um reino sem começo, e aparentemente sem fim.

O emir estava fascinado. Ele queria aquilo. Queria tudo isso. Marrakech podia cair, mas ele vislumbrava uma cidade como nenhuma outra, onde nada tinha fim, onde leite e mel jorravam das montanhas. Não conseguia ver como transformar Marrakech, mas o simples conhecimento da existência desse local mítico era o suficiente. Não podia viajar para o Oriente pessoalmente, sendo um velho com muitas obrigações, mas ele estava desesperado para ver as cidades.

Em Marrakech, havia um alquimista. Seu nome era conhecido pelo emir, mas era envolto de mistério, obscuro. Esse homem tinha poucos escrúpulos e poucas gentilezas. O emir veio até ele, disfarçado, escondido, e pediu que lhe fizesse algo. Algo que lhe permitisse ver, por um único instante, a totalidade de al-Sin.

O alquimista acenou com a cabeça, e se pôs a trabalhar. Pegou vidro e metal, unindo-os. Infundiu neles símbolos e instrumentos estranhos. Tornou-o belo. Colocou óleo dentro. Entregou-o ao emir. O emir acendeu-o e fitou as chamas, e enquanto o observava, hipnotizado, o alquimista partiu, sem ousar olhar para a sua própria criação.

Porque o mesmo mentiu. Ele não tinha ideia do que ver além das montanhas e do oceano. Então ele fez algo diferente. Criou um mundo, e deixou que o emir projetasse nele sua própria visão. O que o emir viu não foi al-Sin, mas o conteúdo de sua mente sendo trazido para aquela cidade. Foi criado por ele. Era parte dele, e ele era parte dela.

Mas não era o suficiente para o emir. Ele estava paralisado, enlouquecido. Ele viu a utopia. Sob a escuridão como proteção, ele deixou sua cidadela, com apenas uma túnica, comida, e um pouco de água. Nunca mais foi visto de novo.

Dentro da lanterna, dentro da cidade, milhares de diferentes presentes existiam. Particularidades de cada momento, capturadas nesse grande acidente, esse espelho da mente do emir. Nós, seus sucessores mais humildes, jamais conseguimos moldar a cidade como ele a moldou, apenas com um olhar para a chama – ela foi concebida para ele. Mas seguimos seus passos. Encontramos nossos caminhos para a China – pois toda viagem à China, para o povo marroquino, era necessariamente difícil, necessariamente uma peregrinação. E uma vez lá dentro, alteramos, transformamos e moldamos a cidade além do que seria imaginável para o alquimista, para o emir. Seu al-Sin celestial, seu Marrakech distorcido, é real. É perfeito. É possível. Tudo o que é necessário é fé e o esforço de nossos pés tortuosos.

SCP-4005 teve sua reclassificação para Apollyon.

Adendo 7 29/06/2028

Segue abaixo um registro de entrevista não agendada entre SCP-4005-1A e Dra. Hardcastle.

Data: 29/01/28

Entrevistadora: Dra. Martha Hardcastle, Líder do Projeto SCP-4005

Entrevistada: SCP-4005-1A, anteriormente Dra. Fatima Mahmoud, pesquisadora de Nível 3 no Sítio-867.

Localização: Sítio-867, Alojamento do Diretor do Sítio.

<Início do Registro>

SCP-4005-1A: Olá, Martha.

Dra. Hardcastle: O que você quer? Fale logo.

SCP-4005-1A: Quero saber se está bem. Sou sua amiga.

Dra. Hardcastle: Você tem novos amigos agora. Não vai fugir com eles?

SCP-4005-1A: Eles são meus irmãos e irmãs de peregrinação. Não são meus amigos. E, de qualquer forma, ainda não terminei aqui.

Dra. Hardcastle: Não sobrou ninguém, todos se foram. Todos eles. Meu marido estava rindo e sorrindo quando me deixou com as crianças. “Nos veremos em breve”, ele disse. Mas não vai. Eu nunca vou. Nunca.

SCP-4005-1A: Por que não?

Dra. Hardcastle: Porque não existe utopia! Não existe perfeição, mudança, apenas uma luta sem fim! Como isso funcionaria, afinal? Uma cidade que fosse a cidade perfeita para todos? E quanto às pessoas que odeiam cidades?

SCP-4005-1A: Eles criam espaços verdes em seu centro, tão vastos que nunca veem o resto.

Dra. Hardcastle: E como isso pode ser considerado uma cidade? Isso poderia descrever um país inteiro.

SCP-4005-1A: Porque cada parque é cercado por edifícios, construídos de tal forma que só podem ser vistos por aqueles que deveriam vê-los.

Dra. Hardcastle: E quem decide quem deve fazer isso?

SCP-4005-1A: A cidade decide. O que funcionar para cada pessoa. O que quer que elas queiram.

Dra. Hardcastle: Isso não é utopia. Uma verdadeira utopia-

SCP-4005-1A: Uma verdadeira utopia, Martha, é o local onde pessoas podem coexistir e serem felizes. Não é apenas o paraíso. É algo mais real.

Dra. Hardcastle: Vou confiar no mundo real, obrigada.

SCP-4005-1A: Quem define o que é real, e o que é mentira? A distinção está apenas na sua cabeça, Martha. Você é extraordinária. As únicas pessoas capazes de resistir foram aquelas que entenderam a anomalia, que entenderam o que estava acontecendo com elas, mas todas acabaram vendo a luz. Mas você, Martha, segue em frente, indiferente. Você simplesmente não consegue enxergar nenhuma beleza no que está acontecendo. Você sequer consegue aceitar a ideia de que talvez o mundo possa ser melhor.

Dra. Hardcastle: O mundo não está melhorando. Você só está fugindo. Covardes! Todos vocês são covardes.

SCP-4005-1A: O que você não entende é que não é um Risco Cognitivo, Martha, é livre arbítrio. Nós vimos algo belo e o desejamos. Estamos em peregrinação. Peregrinações não são sempre seguras, especialmente porque a comida é limitada. Atravessamos a terra a pé, até encontrarmos o lugar para onde devemos ir. Em todo o mundo, nações seguem em frente.

Dra. Hardcastle: Exceto você.

SCP-4005-1A: Minha peregrinação é você, Martha.

Dra. Hardcastle: O que… o que isso quer dizer?

SCP-4005-1A: Minha peregrinação é convencer você a ir.

SCP-4005-1A abre a porta.

SCP-4005-1A: Aí está. Meus Portões de Ferro, minha passagem para Kashgar. Mas só se abrirão se você vier comigo.

Dra. Hardcastle: Eu não vou com você.

SCP-4005-1A: A cidade, Martha, é dividida em distritos, forjados por cada pessoa-

Dra. Hardcastle: Não estou ouvindo, não estou ouvindo, não estou!

SCP-4005-1A: -e cada distrito converge em um ponto central. Não importa a impossibilidade; a física é apenas uma convenção deste universo. A forma da cidade- a maneira como ela é percebida- é o que a define. O mesmo lugar pode parecer totalmente diferente dependendo da imagem do espaço e de sua ausência que criamos. E no centro reside a resposta.

Há uma pausa de vários segundos.

Dra. Hardcastle: A… resposta?

SCP-4005-1A: Um emir de Marrakech. É só isso, e não nego. No centro da rua, atravessando todas as vias, o coração da cidade é um único pátio marroquino cercado por quatro muros. E nele está um emir, que sorri.

Dra. Hardcastle: …Por quê ele sorri?

SCP-4005-1A: Porque ele sabe que existe bondade neste mundo, Martha. Porque ele sabe que existe uma resposta. Que a humanidade pode melhorar sua própria condição. Que sua cidade jamais morrerá, porque sua cidade é uma Marrakech entre as estrelas, uma fábula de al-Sin. Ele é feliz porque acredita.

Há uma outra pausa longa.

Dra. Hardcastle: Em toda minha vida, eu nunca acreditei em nada. Em nenhum Deus, nenhum homem, nenhuma ideia de criação, nem em nada… e tudo o que sempre fiz foi trancar as coisas em caixas para adiar a morte por mais um dia. E nunca ousei sonhar que poderíamos mudar isso. Nunca ousei ter esperança.

SCP-4005-1A: É nosso destino estarmos presos a uma roda que gira eternamente. Venha comigo, Martha. Venha e quebre as correntes. Venha e seja livre.

Adendo 8 02/07/2028

Segue abaixo um terceiro conjunto de entradas decodificadas do diário de Omar ibn Rashid. A equipe de tradução e decodificação do SCP-4005 insistiu, logo após se tornarem instâncias SCP-4005-1, que a Dra. Hardcastle preservasse essas entradas no banco de dados da Fundação. A Dra. Hardcastle acatou o pedido pouco depois de aceitar o fato de ter se tornado uma instância de SCP-4005-1.

O futuro é uma mentira. É uma esperança desesperada projetada por homens desesperados na névoa que não conseguem ver, apenas para que tudo desmorone na inevitabilidade do esquecimento.

Quando eu penso no meu país, vejo vários futuros. Vejo a plenitude de várias tiranias, do governo de Nasser, da Irmandade, das ideias liberais, dos fascistas, das ideias marxistas ou de qualquer outra que surja. Cada um deles conhece o passado: um sistema infinito de nação, fé ou classe. Cada um deles conhece o presente: uma série de problemas a serem resolvidos. E cada um deles conhece o futuro: uma série de distopias ou utopias espiralando para um vazio profundo.

E por trás disso tudo, o Cairo cresce, como um monstro enorme, sem controle nem energia. Uma massa de pessoas, emergindo de comunidades ancestrais e atraídas pelas luzes brilhantes da cidade. O Cairo parece ser um sistema, uma coisa unificada e singular que faz sentido e oferece respostas, mas isso é uma mentira. Todas as cidades são um caos, dependentes de seus arredores. Elas se definem por não serem o país, assim como o país se define por não ser a cidade, mas se interpenetram. Ruas, praças, mercados, percebidos de uma maneira sob um ângulo, são vistos de forma completamente diferente sob outro. A vista de cima, de baixo, da rua e da planície distante altera o sistema. Torna-o mais estranho.

E a história é exatamente a mesma coisa. Os eventos são apenas os blocos de construção. A cacofonia infernal de motivações, entendimentos, paradigmas nos quais nos inserimos para definir as trajetórias do tempo, girar, alterar e mudar. Um grito interminável de ortodoxias, todas interligadas. Todas as coisas subsumidas em um sistema que, ao subsumir tudo, se nega. Passado, presente, futuro; tudo mentiras, ideologias esfarrapadas impostas a um passado relutante. Tudo é mentira. Tudo é nada.

Mas, no fundo de nossos corações, no âmago de nossas convicções, todos compartilhamos o desejo por algo melhor. Algo mais completo. Toda a minha vida foi definida por falsas verdades, o suficiente para fazer um homem chorar, pois nada jamais mudará. Mas talvez exista uma história que não seja mentira. Uma história definida não pelas necessidades do presente, mas pela compreensão da luta dos pobres, das fábulas dos crentes, das mil narrativas incontestáveis que se confrontam para criar um todo glorioso e belo.

E se os blocos de concreto sem fim de Cairo fossem transformados? Arabescos e murqanas varrendo suas janelas e paredes, entrelaçando-se em padrões infinitos. As pessoas dentro deles ascenderiam da miséria para se tornarem príncipes, heróis, salvadores. Em vez do caos interminável e instável, um mundo governado por narrativa, propósito, movimento, com todos imersos em uma beleza criada por eles mesmos.

Eu os entendo agora. Entendo os ideais que pulsam nos corações dos homens. Há uma cidade, no alto de uma colina, através de uma porta, sob uma caverna. É uma cidade que nasceu de uma longa e cansativa peregrinação; e quando essa peregrinação termina, ela se torna um labirinto de ruas escuras, cada uma se abrindo para a outra, um emaranhado de histórias diferentes que se entrelaçam. Istambul se funde com Pequim, que se funde com Tenochtitlán, cada uma mais vasta e terrível que sua contraparte terrena.

Você anda em meio ao caos. Anda entre famílias, enquanto cozinham em braseiros antigos e constroem prismas de luz, refratando-os incessantemente até se anularem. Os diversos bairros, todos focados, infinitamente, em um único ponto, porque todos são variações desse mesmo ponto. Você avança pela neblina, por entre imponentes arranha-céus ao entardecer, por palácios mouros cobertos de areia, por currais zulus sinuosos e mesquitas de barro em Timbuktu, através dos olhos dos moradores africanos e do sonhador europeu.

No centro da teia, na localização perfeita do tempo cósmico, na encruzilhada da cidade, ergue-se um palácio. Não parece grandioso. Não parece nada de especial; apenas uma casa vermelha em Marrakech. E dentro dele há um pátio. E dentro deste está um emir de rosto pálido, que sorri, simplesmente sorri, sentado no chão e sorrindo para um sol que banha uma cidade que jamais morrerá. E ele sorri porque sabe que a utopia é possível, se cada um avançar, pouco a pouco, em direção à sua própria criação.


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